segunda-feira, 26 de maio de 2014

Padres casados?

Mastroianni e Loren no filme cómico de 1971 "La moglie del prete"
Foto retirada do sítio do Vatican Insider
Vinte e seis mulheres escreveram ao Papa a pedir a revisão da disciplina do celibato, disponibilizando-se para transmitirem em viva voz as suas histórias de amor com sacerdotes, algumas assumidas, outras clandestinas. Esta iniciativa, para além de relançar o tema, demonstra como o Papa gerou um ambiente de abertura e de diálogo, de tal forma que as pessoas não têm receio em lhe expor as suas ideias e acalentam a esperança de serem por ele recebidas e escutadas.

O Papa Francisco tem-se referido esporadicamente a esta questão, mas ainda não clarificou a sua posição. Contudo, é conhecido o pensamento do cardeal Bergoglio. Nos diálogos com o rabino Skorka, abordou o tema sublinhando que esta não é uma questão de fé, mas de disciplina – e que, por isso, pode ser mudada. Dizia porém: “Para já, sou a favor de que se mantenha o celibato, com os prós e os contras que ele tem, porque são dez séculos de boas experiências mais do que de más”.

Em relação aos relacionamentos dos sacerdotes que teve de gerir, nunca alinhou com situações dúbias ou escondidas. “Se um deles me aparecer a dizer que engravidou uma mulher, ouço-o, procuro transmitir-lhe paz e, aos poucos, faço-o perceber que o direito natural é anterior ao seu direito como padre. Portanto, tem de abandonar o ministério e tomar conta daquele filho, […] porque, tal como aquela criança tem direito a ter uma mãe, também tem direito a conhecer o rosto de um pai”.

O teólogo Vito Mancuso, num artigo publicado no jornal “La Repubblica”, defende que “chegou o momento de integrar as experiências dos dois milénios anteriores e de fazer com que aqueles padres que vivem histórias de amor clandestinas (que serão bem mais de 26...) possam ter a possibilidade de sair à luz do sol, continuando a servir as comunidades eclesiais às quais eles vincularam as suas vidas”. O exercício do ministério presbiteral sairá a ganhar com isso e, afirma Mancuso, “muitos milhares de padres que deixaram o ministério por amor a uma mulher poderiam voltar a dedicar a vida à missão presbiteral”.

Resta-nos aguardar a resposta do Papa a essas 26 mulheres. As suas palavras deverão indicar a abordagem que se fará, neste pontificado, à questão do celibato.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 23/05/2014)

domingo, 18 de maio de 2014

Padres “trepadores”

Imagem retirada do site News.va
“Não há vida como a de padre” é uma expressão que dá conta de uma conceção popular do pároco, sobretudo em ambiente rural: acomodado, sem as preocupações habituais das pessoas comuns, tais como o emprego, a educação dos filhos ou a subsistência da família. “Telha de igreja sempre goteja”, é um outro dito popular que traduz a dada como adquirida tranquilidade clerical, de quem terá sempre o seu “rendimento mínimo garantido”.

Não é essa a perspetiva do Papa Francisco. Ele que não quer sacerdotes instalados. De tal forma que, ainda no domingo passado, apelou aos cristãos para que “importunem” os seus pastores. “Não os deixeis em paz! Constringi-os a estarem vigilantes, a não se fecharem nas suas ocupações, porventura burocráticas, (…) a serem vossos guias doutrinais e da graça”, disse.

Não é fácil ser pastor das comunidades católicas na “Era Francisco”! Mas é seguramente muito mais gratificante sentir que se tem uma influência positiva na vida das pessoas, como seu guia espiritual, do que viver absorvido em vãs tarefas administrativas ou obcecado pelas preocupações que o Papa classifica como os principais pecados clericais: a vaidade, o apego ao dinheiro e a sede de poder.

A vaidade e a vanidade dos que se acham superiores ao seu povo, que se entendem como uma casta sacerdotal, e o “amor ao dinheiro”, são dois pecados que “o povo não perdoa ao seu pastor”, disse recentemente num encontro com seminaristas romanos.

O carreirismo clerical tem sido frequentemente criticado pelo Papa, em linha com Bento XVI, que também o condenou por diversas vezes. Numa das suas últimas homilias na Casa de Santa Marta chegou mesmo a reconhecer que “na Igreja há trepadores”! Recomendou-lhes que façam alpinismo, já que gostam tanto de escalar, mas não venham para “a Igreja trepar”! E advertiu que “Jesus repreendeu estes trepadores que procuram o poder.”

Seria bom que as montanhas ganhassem novos alpinistas e que a Igreja se libertasse desses “trepadores” que procuram o poder pelo poder. E seria bom, também, que os fiéis deixassem de olhar para os sacerdotes como meros funcionários do sagrado, a quem se recorre para determinados serviços, e encontrassem neles os guias espirituais de que necessitam.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 16/05/2014)

domingo, 11 de maio de 2014

Jesuítas ao leme

Lombardi e Spadaro, os jesuítas que controlarão a comunicação do Papa
Foto retirada daqui
Aos poucos o Papa vai introduzindo as suas reformas na pesadíssima máquina do governo da Santa Sé. Esta semana deu mais um passo na credibilização do Instituto das Obras Religiosas (IOR), o banco do Vaticano, com a elaboração da “lista negra” de pessoas e instituições a quem foram congelados os bens por suspeitas de ligações à criminalidade internacional ou ao terrorismo.

Também a estratégia da comunicação tem vindo a mudar com o Papa Francisco e está para sofrer uma profunda reestruturação.

Antes, toda a comunicação do Papa era acompanhada de perto pela Secretaria de Estado – uma espécie de Ministério dos Negócios Estrangeiros – que geria a sua agenda e procurava controlar tudo o que ele dizia. O Papa Francisco passou a ter duas agendas. De manhã segue a que a Secretaria de Estado continua a determinar e, à tarde, recebe em Santa Marta as pessoas que entende, por vezes fora do controlo dos diplomatas do Vaticano.

Com Bento XVI o Pe. Lombardi, porta-voz da Santa Sé, coordenava as suas declarações com a Secretaria de Estado. O Papa Francisco confirmou nessas funções o mesmo sacerdote, mas passou a combinar tudo diretamente com ele. Não é de estranhar que assim seja, uma vez que ambos são jesuítas e já se conheciam bem antes de o cardeal Bergoglio assumir a cadeira de Pedro. Entretanto, na sequência do estudo elaborado pela consultora McKinsey para a reforma da Cúria, o Papa vai encarregar o Pe. Lombardi de coordenar todos os órgãos de comunicação do Vaticano. António Spadaro, um outro padre jesuíta, a quem deu a primeira entrevista, vai substitui-lo como porta-voz e diretor da Sala de Imprensa.

Toda a política comunicativa da Santa Sé passa, assim, a ser controlada por dois jesuítas, uma opção que não é consensual no interior da Cúria e que tem sido muito criticada, segundo o diário italiano “Il Fatto Quotidiano”, sobretudo por aqueles que antes a controlavam.

Independentemente das pessoas ou da congregação a que pertencem, é importante que todos desempenhem bem as missões que lhes são confiadas. E é crucial que ajudem outros setores da Igreja a desenhar estratégias de comunicação melhor coordenadas, mais ajustadas à lógica mediática e, por isso mesmo, mais eficazes.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 09/05/2014)

domingo, 4 de maio de 2014

Papas ausentes

Papas desde João XXIII até ao atual
Arranjo gráfico de Lorenzo Rumori retirado daqui
Cerca de um milhão de pessoas acorreram à Praça de S. Pedro para participar na canonização de dois novos santos: João XXIII e João Paulo II. Dado que a memória do papa polaco está mais viva na mente e no coração dos fiéis, não é de estranhar que a maioria dos presentes sejam seus devotos. João XXIII foi um papa muito popular, no seu tempo, e querido pelos fiéis, que rapidamente o começaram a apelidar de "Papa Bom", apesar de então não haver os meios de difusão das notícias, que, hoje, possibilitam o acompanhamento próximo do dia-a-dia do Papa.

João XXIII iniciou o caminho de humanização do papado que se intensificou com os seus sucessores – em particular com João Paulo II que, após anos de exposição mediática nas inúmeras viagens que realizou, não quis esconder a doença e a decrepitude do Papa. Também Bento XVI deu um assinalável contributo ao reclamar para o bispo e de Roma o direito a "reformar-se".

Numa mesma celebração reuniram-se quatro dos Papas que resgataram a Igreja do encerramento nos muros vaticanos para o diálogo com o mundo e a contemporaneidade. Faltaram somente o Papa Paulo VI e João Paulo I, a quem ainda não foi reconhecida oficialmente a santidade mas que, também, contribuíram para essa caminhada.

Paulo VI foi o timoneiro que assumiu o leme do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu antecessor, e o soube levar a bom porto. Ficou, assim, ligado à maior reforma da Igreja desde o concílio de Trento, quinhentos anos antes.

João Paulo I, para além de ter homenageado os seus dois antecessores no nome escolhido, no seu curtíssimo pontificado deixou antever uma personalidade muito semelhante à do atual Papa. Era um bom comunicador. Criou uma relação empática com as pessoas, que o cognominaram de "Papa do Sorriso". Tal como Francisco, nas audiências gerais interagia com os assistentes, "entrevistava" crianças e jovens.

São dois papas a que a história ainda não fez justiça. Muitos acreditam que também eles trilharam o caminho da Santidade e desejam que rapidamente sejam reconhecidos como pertencentes a essa galeria de homens e de mulheres que, nas mais diversas circunstâncias, viveram a sua fidelidade a Jesus Cristo e aos valores do  Evangelho.

(Texto publicado no Correio da Manhã de 02/05/2014)